eram aproximadamente trinta graus entre o ponteiro de horas e de minutos. a noite, escura e medonha, veio aos poucos pedir um pouco de abrigo dentro do cômodo de um pequeno homem.
estava ele, sentado, olhando disfocadamente ao chão que parecia um borrão de cores com tons amarronzados.
o frio veio lhe chamar pra uma dança d'uma valsa quieta e sibilante - variável como a aparição da lua por entre as nuvens.
o homem levantou aos poucos, com dores nas juntas, por estar ali, como estátua, à espera de sua ode. caminhando como um idoso com problemas ósseos, conseguira alcançar aos poucos a maçaneta do banheiro.
deu uma olhadela procurando por algum dos elementos da noite que o convidou pra sair, chamando-os para entrar.
nenhum sinal.
as sobrancelhas ergueram-se como sinal de desapontamento, o corpo retomou sua jovialidade e ao entrar no cômodo azulejado acenou brevemente com a cabeça ao seu reflexo criado no espelho retangular e tosco.
a chuva criada por mecanismos humanos, limpou-o de toda pele que o impedia de poder se locomover corretamente. pelo ralo se foram alguns pedaços de matéria orgânica, idéias vagas, vontades, sonhos incompletos, letras de música escritas na hora...
a substituição substancial ocorrera em alguns minutos e todo o vapor acumulado tomou conta daquele cubículo coberto de azulejos cor de creme.
ao sair, a água que antes saía de pequenos furos acima da cabeça, agora pingava pela ponta dos fios de cabelo do homem.
seu rosto, era nulo, amorfo. todos seus reflexos se foram para o ralo, todas suas personalidades foram limpas com um corrente de água quente.
o ser, agora indefinido, com cabelos e formas semi-contornadas, procurou no seu espelho tosco aonde foram seus reflexos.
ao limpar toda aquela área de vapor d'água com voracidade, encontrou mais vapor acumulado.
ele se viu preso dentro duma câmara de gás, que não era nocivo, não era letal.
apenas roubara sua face do espelho.
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