quinta-feira, 24 de junho de 2010

vontade #01

ao lado da mão direita, um copo de algo destilado pra poder acabar com a coceira na garganta que teve pela semana inteira. uma tosse seca como a da porta do seu quarto quando aberta.
seu relógio não tinha ponteiros, pois ele mesmo dizia que ter horas pras coisas era extremamente humano, queria se distanciar deste lado pobre que o mantinha preso às coisas que mais lhe agradavam. o toque. o cheiro. o ser.
tinha em seus fios de cabelo, vontade de arrepios, em seus lábios o gosto de um doce estranho que lhe dava calafrios por ser azedo no fim.
a monotonia não era mais a mesma desde alguns tempos, parara de ser tão excitante quanto fora nos seus tempos boêmios.
as lembranças das luzes cruas que lhe diziam como fora sua voz ontem mostravam que mesmo sem os ponteiros, as engrenagens rodavam fazendo tic tac a cada olhadela pelo passado.
suas medidas deixaram de ser as mesmas, o fato de ter ganho conhecimento lhe pesara agora demasiadamente.
os olhos profundos mostravam que seu sono era inquieto, vivia acordando à noite, pra cutucar o pé de seu dono com uma pena das asas de sua liberdade.
os pés gelados, abraçavam as meias e o sapato, que em conjunto se mexiam aleatória e desesperadamente no banco do bar de balcão alto.
frio. frio. dores constantes de memória. olhos lacrimejantes, respiração alterada e escorrer nasal seguido de mão no rosto.
um tubo cilíndrico e pequeno que continha nicotina, alcatrão e seus artefatos usados para poderem expurgar seus demônios internos, fora aceso ao som de utensílios metálicos geradores de faísca.
a tosse, o bafo controlado de inferno e o copo interminável.
ao seu lado, somente a vontade de se solidificar ali por alguns segundos mais.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

sentido nulo

a fome nos deixa com tanta preguiça por sermos tão gulosos e ficarmos com raiva dos que tem avareza suprema por cobiçarem com tanta inveja e ira os orgulhosos de corpos robóticos que constituem o grupo de pessoas com luxúria infame sendo escravos da vaidade mundana

vapor ladrão de rostos

eram aproximadamente trinta graus entre o ponteiro de horas e de minutos. a noite, escura e medonha, veio aos poucos pedir um pouco de abrigo dentro do cômodo de um pequeno homem.
estava ele, sentado, olhando disfocadamente ao chão que parecia um borrão de cores com tons amarronzados.
o frio veio lhe chamar pra uma dança d'uma valsa quieta e sibilante - variável como a aparição da lua por entre as nuvens.
o homem levantou aos poucos, com dores nas juntas, por estar ali, como estátua, à espera de sua ode. caminhando como um idoso com problemas ósseos, conseguira alcançar aos poucos a maçaneta do banheiro.
deu uma olhadela procurando por algum dos elementos da noite que o convidou pra sair, chamando-os para entrar.
nenhum sinal.
as sobrancelhas ergueram-se como sinal de desapontamento, o corpo retomou sua jovialidade e ao entrar no cômodo azulejado acenou brevemente com a cabeça ao seu reflexo criado no espelho retangular e tosco.
a chuva criada por mecanismos humanos, limpou-o de toda pele que o impedia de poder se locomover corretamente. pelo ralo se foram alguns pedaços de matéria orgânica, idéias vagas, vontades, sonhos incompletos, letras de música escritas na hora...
a substituição substancial ocorrera em alguns minutos e todo o vapor acumulado tomou conta daquele cubículo coberto de azulejos cor de creme.
ao sair, a água que antes saía de pequenos furos acima da cabeça, agora pingava pela ponta dos fios de cabelo do homem.
seu rosto, era nulo, amorfo. todos seus reflexos se foram para o ralo, todas suas personalidades foram limpas com um corrente de água quente.
o ser, agora indefinido, com cabelos e formas semi-contornadas, procurou no seu espelho tosco aonde foram seus reflexos.
ao limpar toda aquela área de vapor d'água com voracidade, encontrou mais vapor acumulado.
ele se viu preso dentro duma câmara de gás, que não era nocivo, não era letal.
apenas roubara sua face do espelho.

terça-feira, 22 de junho de 2010

rotina

dormir. acordar. reclamar do fim da pasta de dente. sonecar. tomar café. escovar dentes com o fim da pasta. arrumar-se. conseguir levantar da ponta da cama. ir a algum lugar que não é o mesmo que estava acostumado há pouco tempo. almoçar. escovar os dentes com outra pasta, senão a última. olhar no espelho e reclamar dos olhos roxos de cansaço. sonecar indevidamente. cafeína entre os dentes. voltar de onde não devia ter tentado ir. sentir-se como fora algum dia. preparar-se pra poder voltar uns anos. pensar o suficiente pra ficar com fome. ter vontade de olhar o relógio. ouvir vozes ao mesmo tempo de seu pensamento. gritar em silêncio o fim da mesma rotina frente a uma máquina que registra suas idéias remotas. sentir sono. fechar os olhos e não poder dormir. saber se trocar. dentes, novamente. cobertores para o frio, lençóis para o calor, sonhos para jovens idosos.

para frente à tevê e contar quarenta e oito horas de descanso, enquanto faz coisas pra poder se cansar logo. banhos frequentes. maçãs. música. sonhos. realidade. dias. semanas. ano. planejamento indevido. indiferença. diferença demasiada. conflito. sonhos. sono. sono. sono. dormir.
Eu poderia até saber logo cedo quando foi a última vez que consegui parar de pensar só por um minuto em quantas coisas podem estar acontecendo no mundo enquanto falo isso pra ti.
Contei até agora alguns segundos na minha mão direita, fiz uma espécie de cronômetro mental pra tentar calcular quantas pessoas podem estar morrendo, matando, nascendo, criando.
Eu não consegui até hoje vizualizar-me fora deste cubículo mental onde as coisas acontecem por acaso do acaso, pois saibas tu que não é nenhum desaforo ouvir que a sorte existe pra pessoas que nascem com ela. Ela, de fato, não existe: é tudo tramóia da oposição. Mas te digo outra coisa: é um azar nascer com sorte, pois você não será nunca o que morre, mata, nasce ou cria, você é o que conta com os dedos direitos quem tem azar de nascer azarado.

pequeno aceno

veio longe, olhando as pessoas que rodeavam com olhar de curioso. Uma criança que aparentava ter seus cinco anos, com seu balão de hélio com duas letras estampadas em formato garrafal num cumprimento d'outra língua - HI.
Poderia contar nos dedos quem acompanhava dos teus joelhos ao balão com os olhos, tendo que levantar a cabeça a fim de chegar no fim do fio que sustentava aquele garoto magro de cabelos lisos.
a neblina que cobria toda ponte - cenário de tal espetáculo - fez os segundos se perdurarem por alguns longos minutos. o garoto que aos poucos foi abrindo a mão pra poder entregar o balão a um estranho que se aproximava, esboçou um sorriso breve de pelo menos dois polegares de distância para cada lado.
o balão sendo livre daquele pouco peso que o prendia àquela altura, foi levantando alguns centímetros acima da mão do garoto como o levantar vôo das pombas d'um parque à tarde.
nem o estranho nem o menino ficaram satisfeitos.
o vento empurrou aquele artefato de bexiga e gás hélio a leste. o garoto parou de sorrir, o estranho foi aos poucos se abaixando, até então chegar ao pé do ouvido do pequeno e dizer: "não precisava me dar nenhum balão.. eu só quero um abraço".